Festival de Cinema de Triunfo marcado pela resistência


 

Em uma cidade com pouco mais de 15 mil habitantes, no topo de uma serra a mais de mil metros do nível do mar, profissionais da sétima arte e entusiastas de várias localidades do país se reúnem anualmente para fazer, debater, exibir... respirar cinema. Num tempo de política de desmonte da cultura, de ameaças de extinção e censura velada contra a Ancine e medidas obscuras do Governo Bolsonaro contra a classe artística, o Festival de Cinema de Triunfo é resistência. E o “bunker” é o Cineteatro Guarany. 


A 12ª edição teve seis dias de ações frutíferas e representativas, do dia 5 até o último sábado, quando foram anunciados os vencedores da mostra competitiva. Desyrrê, mulher trans, negra e moradora de Triunfo, subiu mais de uma vez ao palco para buscar troféu pelo documentário homônimo no qual é protagonista. Teve prêmio para NEGRUM3, de Diego Paulino, obra com um mergulho na caminhada de jovens negros em São Paulo. Teve protagonismo para Graciela Guarani e o seu Opára: Morada dos nossos ancestrais, sobre a luta indígena. 

 

Kleber Mendonça Filho, diretor dos longas O som ao redor, Aquarius e Bacurau (vencedor em Cannes), foi - junto com a atriz pernambucana Lívia Falcão - um dos homenageados do evento e externou um pouco do sentimento de estar ali presente. “É um momento que eu não esperava estar vivendo no Brasil. Quando cheguei hoje à noite, fui recebido por um grupo das ‘veinhas’ (personagens típicas de Triunfo, assim como os caretas), elas estão segurando uma placa de Marielle Franco e não há nenhum xingamento, retaliação ou mal-estar. É simplesmente uma expressão livre de um sentimento. Pode ser uma coisa pequena, mas é muito significativa pra mim. Eu viajo bastante e me sinto ainda muito protegido aqui em Pernambuco. É um sentimento especial num Brasil que tem sido muito feio”, declarou.

 

A vice-governadora do estado, Luciana Santos, foi ainda mais mordaz. “O governo (federal) tem se caracterizado como autoritário e que precisa do obscurantismo. A cultura é justamente onde há a possibilidade de pensamento livre e crítico. Mas aqui em Pernambuco estamos dizendo ‘não’. É um estado de vanguarda, que sempre garantiu que ícones da cultura falassem para o mundo.”

 Fonte: Diário de Pernambuco